No Fórum da Memória: Revivendo a memória de Eider Furtado

2 junho, 2020  Por: André Felipe Furtado  Artigos

Um estágio com Hélio Galvão por André Felipe

           Em seu primeiro livro, “Audiência de um Tempo Vivido” (2004), Eider Furtado dedicou um capítulo, homônimo ao título desta resenha, para lembrar do tempo em que foi estagiário do ilustre advogado e pesquisador Hélio Mamede de Freitas Galvão.

            O convite para o estágio foi feito por José Cabral Fagundes, companheiro de Eider na Faculdade de Direito de Natal. José Cabral havia sido convidado pelo próprio Hélio Galvão para o estágio, mas, por ser dono de uma farmácia, precisou declinar, e, para seu lugar, indicou seu colega de turma, que, sem pestanejar, aceitou.

            Em fevereiro de 1958, portanto, no quarto ano do curso de direito, Eider Furtado, então com 33 anos, foi levado por José Cabral à casa de Hélio Galvão, na Av. Campos Sales, em Tirol, onde hoje funciona a Fundação que leva seu nome. Devidamente apresentado ao renomado advogado, ficou combinado que o estágio iniciaria na segunda-feira seguinte.

            O novo estagiário chegou pontualmente às 13:30h. O escritório de Hélio Galvão ficava na Rua Dr. Barata, no coração da Ribeira. Convém destacar que, à época, a grade curricular do curso de direito era muito diferente da atual, de modo que as disciplinas de direito processual penal e direito processual civil somente eram estudadas no quarto ano, exatamente o ano em que Eider iria cursar. Pois bem. Ao ser perguntado por Hélio Galvão se sabia fazer um recurso stricto sensu (processo penal) e um agravo interno (processo civil), o estagiário foi objetivo: “Nem sei o que é isso”.

            A peça escolhida por Hélio Galvão foi o recurso stricto sensu. Eider disse que levaria os autos do processo criminal para casa, para poder estudar melhor. De súbito, o advogado disse: “Levar para casa? Isso nunca!”. O receio de Hélio Galvão era que o seu estagiário pudesse se utilizar de algum modelo para petições, como os famosos formulários de Yára Muller, para fazer o recurso. Então, o jeito foi se debruçar sobre o processo ali mesmo, no ambiente de trabalho. E tudo isso no primeiro dia de estágio.

            Valendo-se da experiência de jornalista, Eider Furtado, nas próximas duas horas, estudou o processo e fez suas anotações em papel de rascunho. Ao ser questionado por Hélio Galvão se tinha conseguido fazer “alguma coisa”, entregou-lhe, já preparado para tomar uma bronca. Depois de ler, o advogado deu um tímido sorriso e disse-lhe para passar a limpo. E finalizou: “Diga a quem perguntar que o seu primeiro trabalho neste escritório teve a minha aprovação, sem reparos”.

            Durante o período de aprendizado, advogado e estagiário liam os autos e discutiam a matéria. Depois, Hélio Galvão ditava as peças, enquanto Eider as datilografava na máquina de escrever. Com o tempo, Eider Furtado passou de estagiário a amigo de Hélio Galvão. E prova disso é que, mesmo após o término do estágio, Hélio Galvão ajudou e orientou a Eider sempre que foi procurado. Amizade solidária, verdadeira e sem interesses, daquelas que dificilmente se vê hoje em dia.

André Felipe Furtado é Bacharel em Direito pelo Centro Universitário do Rio Grande do Norte – UNI-RN, desde o ano de 2005, Membro inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional do Rio Grande do Norte, sob o nº 5.890, Advogado do escritório desde 2005, tornando-se sócio no ano de 2018, Mestrando em Sociedad Democrática, Estado y Derecho pela Universidad del País Vasco, Espanha, Curso de Extensão em Direito Público pelo Praetorivm, em 2006, Pós-graduando em Direito Processual Civil pela Universidade Potiguar, Sócio Efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN, Ocupa a Cadeira n.º 6 da Academia Ceará-mirinense de Letras e Artes – ACLA.

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