Artigo: Gestão financeira – Efeito tesoura e o risco do crescimento

24 setembro, 2018  Por: Vinícius Dantas  Artigos

Todas as empresas possuem o crescimento como um objetivo a ser alcançado. É a expectativa de ampliar o sucesso que molda a visão dos empreendimentos e, por consequência, todo o planejamento estratégico que se desenvolve a partir desta visão. Ocorre que, muitas vezes, esse crescimento, sem uma estrutura adequada, pode resultar em graves problemas financeiros, capazes, inclusive, de inviabilizar a operação.

Pode parecer contraditório pensar que o acelerado crescimento de uma empresa pode ensejar sua ruína, mas é mais comum do que se imagina. O aumento das operações de uma empresa acarreta, naturalmente, um aumento de sua necessidade de capital de giro (NCG), o que, por sua vez, tende a reduzir o saldo de tesouraria (ST) disponível, obrigando a empresa a buscar outras fontes de financiamento para custear seu capital de giro (CDG).

O problema reside no fato de que essas outras fontes de financiamento são, normalmente, provenientes de dívidas de curto prazo, com elevado custo de capital, o que poderá levar a empresa à sofrer as consequências do chamado “Efeito Tesoura”.

Marcos Villela Vieira[1] (2008) conceitua o “Efeito Tesoura” como um fenômeno gráfico que demonstra a evolução das contas operacionais da empresa em contraste com as formas de financiamento do seu capital de giro ao longo do tempo. Graficamente ele pode ser representado da seguinte forma[2]:

Pela representação gráfica, se percebe que há uma relação direta entre o crescimento do faturamento e o concomitante aumento da necessidade de capital de giro (NCG). No início, é comum a empresa possuir saldo de tesouraria (ST) suficiente para manter sua crescente operação sem precisar recorrer à outras fontes de financiamento. Com o tempo, todavia, dependendo da velocidade desse crescimento, a necessidade de capital de giro (NCG) supera o capital de giro (CDG) disponível, tornando indispensável o endividamento da empresa, com empréstimos de curto prazo, para manter sua operação.

Nesses casos, a empresa estará operando acima da sua própria capacidade de financiamento, o que, a depender do grau de endividamento gerado, pode sufocar as margens de lucro e inviabilizar a atividade econômica.

Algumas medidas podem ser tomadas para corrigir ou evitar o surgimento do “Efeito Tesoura”, algumas delas possuem, concomitantemente, consequências intrínseca. Dentre as possibilidades existentes, se destacam:

  1. Diminuir a necessidade de capital de giro (NCG), através da redução do prazo médio de recebimento (ou seja, reduzindo o prazo de pagamento concedido ao consumidor) e do prazo médio de estoque, enquanto busca aumentar o prazo médio de pagamento (renegociando com fornecedores uma extensão dos seus prazos).

    Como consequência, tais medidas podem acarretar em uma redução das vendas, em virtude da diminuição dos prazos (ou parcelamentos) concedidos aos clientes, bem como uma diminuição da confiança dos fornecedores.

  2. Captação de recursos financeiros de longo prazo.

    Como medida preventiva, o ideal é privilegiar o financiamento do capital de giro com recursos de longo prazo. Tal medida, permite que se mantenha uma estrutura operacional de baixo risco financeiro.

  3. Captação de recursos financeiros de curto prazo, mas justificáveis pelo retorno obtido.

    Dentro da estrutura de capital da empresa, pode acontecer do endividamento, para fins de financiamento do capital de giro, se justificar pela rentabilidade do empreendimento. Logo, sendo as taxas de juros pagas pelos empréstimos de curto prazo inferiores ao retorno obtido com a operação, a empresa estará com uma operação equilibrada.

  4. Liquidação de ativos com a finalidade de capitalização da empresa.

    Como medida corretiva, é possível a liquidação de parte dos ativos da empresa com o objetivo de se capitalizar e financiar a crescente necessidade de capital de giro (NCG). Essa possibilidade, contudo, ficará prejudicada se a operação da empresa continuar crescendo desordenadamente acima da sua capacidade de financiamento. Trata-se, portanto, de medida que resolve o problema apenas temporariamente.

  5. Redução da operação/vendas.

    É uma medida drástica, que visa reduzir a operação da empresa para um patamar em que seu saldo de tesouraria consegue financiar sua necessidade de capital de giro, equilibrando, assim, sua atividade. Como consequência, tal medida pode ter um elevado custo de oportunidade, acarretando em perda de mercado.

Crescer desordenadamente, portanto, constitui enorme risco para a empresa, de modo que o gestor deve estar sempre consciente da sua capacidade de financiamento, evitando expandir suas operações para além dessa capacidade. Nesse ponto, a busca por assessorias técnicas pode se mostrar crucial para garantir o desenvolvimento de uma atividade empresarial equilibrada.

 

[1] VIEIRA, Marcos Villela. Administração estratégica de capital de giro. São Paulo: Atlas, 2008.

[2] Gráfico retirado do site https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcQckWAfwK96iXu5PvO1CI7XfPPPtb-36B36dITiA_fQtbrjkCH8, acesso em 13 de setembro de 2018.

 

Vinícius Dantas é Sócio de Serviço do Escritório Eider Furtado Advocacia, Mestrando em Direito pela Universidad del País Vasco/ESP, MBA em Finanças pelo IBMEC e Especialista em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho pelo Complexo Damásio de Jesus.

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